Desde que me conheço por gente, a lembrança de uma criança gordinha não sai da minha cabeça! Na verdade, essa lembrança também possui uma característica traumática, pois o que hoje conhecemos por bulling já existia no passado, porém na minha opinião bulling não é o nome correto, para mim falta de educação é a melhor definição dos apelidos que toda a criança gordinha recebe das outras crianças e, vou mais longe, acredito que isso provém da ausência de educação e limites que muitos pais, ainda despreparados para tal responsabilidade, não fornecem à seus filhos!!
Baleia, baleia assassina, gorda, elefante, hipopótamo... entre tantos outros apelidos desrespeitosos, eu infelizmente ouvi aos montes! Chorava muito às escondidas, porque morria de medo da reação da minha mãe, pois diferentemente das outras mães, ela sempre foi muito brava e ao invés de me proteger, acabava por me agredir fisicamente ou verbalmente. Não querendo passar por mais esse desconforto dentro de minha própria casa, sufocava a mágoa e engolia as lágrimas, deixando para chorar em outra momento, quando estivesse sozinha. Acho que devo à essas crianças mal educadas e à braveza e certa ignorância de minha mãe, o meu rápido amadurecimento e meu profundo respeito ao próximo, seja ele qual for. Todos os seres humanos merecem meu respeito, independentemente de sua aparência física! O que causa repulsa em mim, perante algumas pessoas, são suas atitudes e seu caráter, ou melhor, a falta de caráter!
Quando alcancei minha adolescência, não gostava de sair de casa e hoje admito ser devido minha aparência, a qual não me agradava e claro, à minha baixíssima auto-estima, a qual foi destruída com o passar dos anos, não apenas devido o peso corporal, mas também às outras pessoas, com suas palavras e atitudes, acabaram-na definhando. Como sou filha única, meu pai, por muitas vezes ausente em minha infância, não por escolha dele, mas sim devido seu trabalho, me deixava fazer o que eu quisesse dentro de nossa casa, a fim de me privar das coisas mundanas... Assim, unia a minha falta de interesse em sair de casa na adolescência, com os meus gostos financiados e patrocinados pelo meu pai, tais como: computadores novos, jogos eletrônicos, aparelhos de som, livros e revistas a rodo (desde que aprendi a ler, possuo amor na leitura), entre outros! Podia ligar a televisão, junto com o aparelho de som e o computador, e permanecer fazendo três coisas ao mesmo tempo: assistindo televisão, ouvindo minhas músicas preferidas e conversando em chats, ou seja, salas de bate-papo na internet, uma febre na minha adolescência! Isso era uma maravilha para mim, pois trancafiada em casa, atrás de uma tela de computador, poderia ser desejada e admirada pelas pessoas, já que minha imagem não era vista por ninguém!
Mas é claro, o tempo passou, a idade foi aumentando e os interesses femininos também! Comecei a despertar uma feminilidade e vaidade fora do comum, mas ainda continuava com a auto-estima baixíssima, com os quilos a mais me perturbando e com a minha imagem deturpada por mim mesma. Não acreditava quando amigos próximos e familiares, muito menos meus pais, diziam que eu era bonita, afinal de contas, acreditava que diziam aquilo apenas para me ver por alguns segundos feliz.
Foi quando chegou meu aniversário de 15 anos! Como eu era filha única, meus pais faziam de tudo por mim, moviam mundos e fundos, e eu ganhei uma belíssima festa, com direito a vestido de princesa, coroa, valsa, muitos presentes, buffet, garçons, enfim... tudo fantástico!! Só que eu não tinha um príncipe, nem um paquerinha, como a maioria das meninas da minha idade. Eu atribuía isso ao meu peso, mas hoje sei que o peso era um item adicional! O problema mesmo, era a minha baixa auto-estima, que claro, em minha pessoa estava vinculada ao peso!
Após meu aniversário de 15 anos, uma então amiga da minha mãe, na época, me apresentou uma fórmula milagrosa para perder peso! Na época eu não sabia que não existia fórmulas milagrosas para perda de peso em forma de cápsulas... Mas, como o peso era um problema quase que sem luz no fim do túnel para mim, implorei para minha mãe adquirir essa tal fórmula milagrosa, que eram cápsulas compostas pelo conhecido medicamento Femproporex juntamente com o medicamento Fluoxetina, também havia em conjunto Cáscara Sagrada e mais um componente que não me recordo. Não me lembro ao certo qual meu peso na época, mas acredito que eram muitos. Comecei a ingerir a tal Bomba, ou melhor dizendo, a fórmula milagrosa. Emagreci muito, mas muito mesmo, em pouco mais de um mês. Cheguei ao peso de 57 Kg cravados na balança. Minha auto-estima bombou!! Comprei muitos vestidos e sapatos novos, e para quem sentia prazer em não sair de casa, a essa altura, eu tinha prazer em chegar nas festas sozinha, a fim de atrair todos os olhares para mim! Porém, o uso contínuo do medicamento trouxe seus efeitos adversos, e eu não sentia mais vontade de sair de casa, sentia muito sono e durante o período em que não estava dormindo, chorava muito, sentia uma tristeza fora do comum! E chorava, chorava, chorava... Foi aí que iniciei as minhas tentativas para provocar o vômito! Tentava vomitar colocando o cabo da escova de dentes na garganta, mas nunca consegui tal proeza, visto que não comia devido o composto milagroso retirar todo o meu apetite!! Eu bebia apenas água e comia poucas folhas de alface! Também vivia com balas na boca, a fim de evitar o mau hálito! Não tinha nem conteúdo gástrico para vomitar... O meu sonho em ser linda, magra, desejada e admirada, tinha sido um tiro que saiu pela culatra, pois eu estava magra sim, mas passei a me achar feia, devido a flacidez, as estrias que surgiram devido a rápida diminuição de peso, olheiras em meu rosto, a tristeza instalada em seu ser e para piorar a situação, comecei a ter desmaios, visto que praticamente não me alimentava! Foi quando desmaiei na frente da minha mãe, e ela chorando me pediu que parasse de ingerir aquele medicamento, que estava me matando aos poucos.
Após as lágrimas da minha mãe, as quais me comoveram demais, me deixando ainda mais triste, eu parei de tomar o medicamento e claro, sofri o efeito rebote, engordei 22 Kg. Mas tentava suprir essa minha aparência negativa em frente ao espelho, comprando roupas, cosméticos, sapatos, bolsas e estudando muito, afinal estudar é uma atividade que eu sempre amei! Sabe aquela garota feia e gorda que é a mais inteligente da turma? Pois é... me identificava, para minha tristeza...
Enfim, a vida continuava, e eu tinha que prosseguir com ela...
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